O QUE NOS FAZ PILÕES?
Este texto não tem a intenção de responder à pergunta que o titula. Resulta de dúvidas e questões que tenho ouvido a antigos alunos sobre o IPE e os jovens pilões que hoje o frequentam.
O PILÃO, NUM MUNDO EM MUDANÇA.
O Pilão de hoje não é como o da década de 70 do século XX (50 anos de diferença),tal como esse Pilão não era como o da década de 20 do mesmo século! É o mais natural. Mal seria que, se o mundo mudou tanto, a nossa Escola não mudasse também. Recordemos as grandes alterações das últimas décadas:
- Criação e posterior extinção dos Cursos Superiores.
- Criação do semi-internato.
- Entrada de alunos para o ano Propedêutico, alguns provenientes do Colégio Militar e Instituto de Odivelas.
- Entrada de raparigas.
- Início de anos letivos sem admissões de novos alunos.
- Internato de raparigas.
- Implantação do Secundário Profissional.
- Admissão de alunos para turmas de todos os anos da Escola até ao 10º ano inclusive.
- Predominância de alunos filhos de civis.
- Redução acentuada e grande rotatividade dos militares em serviço no Instituto.
- Redução da autonomia face ao Ministério da Educação, nomeadamente no recrutamento de professores.
Será que, o que dizemos caracterizar o Instituto, como o espírito de corpo, as amizades para a vida, a solidariedade, o orgulho na Escola, a educação militar, se mantém? Pelos contatos com alguns alunos e alguns jovens antigos alunos, concluo que sim.
OS PILÕES DE HOJE
Como se manifestam no IPE, as mudanças que as nossas sociedades experimentam? (Individualismo, perda de valores, relativismo, hedonismo, importância da imagem, medias digitais, desaparecimento dos vários mediadores, de referenciais, etc.).
Caro que as atitudes e posturas são individuais, mudando de aluno para aluno. Mas, com base nos contatos já citados, com alunos e jovens antigos alunos, sou levado a concluir:
- A generalidade dos alunos sente-se bem no Instituto. Há 40, 50 e mais anos, nem sempre era assim. Era a oportunidade possível. Havia dois mundos, um de cada lado do muro. sendo o acesso ao lado de fora, condicionado pelo tempo disponível e pelas possibilidades de comunicação o que nem sempre era bem aceite por muitos alunos. Atualmente, mesmo que internos, os alunos estão sempre num mundo sem muros. A internet, as redes sociais, as mensagens. dão-lhes acesso permanente e total ao lado de fora do muro. O muro deixou de ser um separador!
-Até aos anos 80 e 90 do século passado, fazíamos parte de redes de relações; a família alargada, a rua e ainda a aldeia, nem que fosse só nas férias. O Instituto era mais uma dessas redes. Redes que satisfaziam a necessidade que todos temos de integração, afinal o ser humano é por excelência um ser gregário. As gerações atuais não têm as mesmas redes para se integrarem. As famílias limitam-se ao núcleo parental e muitas são mono parentais. Não se brinca na rua e as férias deixaram de ser com os primos na aldeia. Resta o quê? As juventudes dos clubes de futebol, os grupos voláteis dos festivais, as tribos baseadas em comportamentos, trajares e consumos exclusivistas! O Instituto é, hoje, para os seus alunos essa rede alargada, com regras próprias, mas inclusivas, com valores e referenciais.
- E os que só lá estão três, dois ou mesmo só um ano? Não aconteceu a tantos de nós, no nosso tempo'? Não nos consideramos por igual? Claro que consideramos. Porquê as reservas com os de hoje?
- E depois ainda há os que não são internos, objetarão alguns. A esses, lembro que o saudoso David Sequerra (AA 19430333), também não foi interno. E alguém põe em causa o seu apego ao Pilão?
QUAL É ENTÃO A RESPOSTA?
A melhor resposta é dada pelos atuais alunos, pelo empenho com que cantam o nosso Hino, gritam o nosso "É jacaré?" e o orgulho com que se apresentam fardados em escolas civis para participar em atividades. A farda tem uma certa "grife"! Para tirar dúvidas basta ver a centena de jovens antigos alunos que têm "construído "o nosso "Batalhão da Saudade"!
Talvez a resposta seja que o que nos faz pilões, é a "barreira" de onde somos tirados, o tempo de cada um e depois, a "olaria" onde somos moldados, no nosso caso e, como lembrava o também saudoso Talhinhas, a "Olaria de S. Domingos"!